Relatórios de Sustentabilidade e CSRD: guia prático para empresas
Os relatórios de sustentabilidade assumem hoje um papel central na estratégia das empresas. Neste Webinar Leca, conduzido pela fundadora da consultora Wise Up, Ana Mesquita, foram abordados o enquadramento da diretiva CSRD, a crescente relevância do ESG e a forma como organizações - em especial PME e empresas do setor da construção - podem aplicar o reporte de forma prática e estruturada.
Reunimos as principais ideias desta sessão.
O que é um relatório de sustentabilidade?
O conceito de relatório de sustentabilidade surge no contexto do Pacto Ecológico Europeu, publicado em 2019, que estabelece um conjunto de objetivos para conciliar o crescimento económico com a sustentabilidade ambiental e social.
O objetivo é claro: criar sociedades mais inclusivas, com maior bem-estar para as pessoas e para os ecossistemas, demonstrando que crescimento económico e proteção ambiental podem coexistir.
Neste enquadramento, a União Europeia avançou com a revisão da diretiva NFRD (Non-Financial Reporting Directive), que deu origem à CSRD (Corporate Sustainability Reporting Directive).
Esta nova diretiva tem como objetivos:
- Aumentar a transparência das empresas;
- Permitir a comparação entre organizações europeias;
- Evitar práticas de greenwashing;
- Apoiar decisões de investimento mais informadas;
- Acelerar a transição para uma economia sustentável.
Mais do que marketing: uma ferramenta estratégica
Para Ana Mesquita é importante esclarecer um ponto: o relatório de sustentabilidade não é um instrumento de marketing.
Trata-se de um documento de divulgação de informação relevante sobre:
- Impactos ambientais;
- Questões sociais;
- Práticas de governação.
Para além da comunicação externa, tem um papel fundamental dentro das organizações:
- Ajuda a identificar riscos e oportunidades;
- Permite estruturar informação dispersa;
- Apoia a definição de objetivos e métricas;
- Promove uma melhor organização interna.
Para que servem os relatórios?
Os relatórios de sustentabilidade têm três grandes funções:
1. Comunicar valor e impacto
Permitem dar visibilidade a iniciativas e práticas que muitas vezes não são comunicadas.
2. Organizar internamente a informação
Obrigam à recolha e sistematização de dados, promovendo maior alinhamento entre departamentos.
3. Construir confiança com stakeholders
Reforçam a relação com clientes, parceiros, investidores e comunidade.
De “nice to have” a fator estratégico
Nos últimos anos, estes relatórios passaram de algo opcional para um elemento estratégico. Isto deve-se a três fatores principais:
Pressão do mercado
Clientes e parceiros exigem cada vez mais transparência e dados ESG.
Pressão financeira
Bancos e investidores integram critérios de sustentabilidade na análise de risco.
Pressão regulatória
A CSRD veio tornar o reporte cada vez mais obrigatório, direta ou indiretamente.
O que inclui um relatório ESG?
Os relatórios organizam-se em três pilares:
Ambiental
- Emissões;
- Consumo de energia e água;
- Uso de recursos;
- Produção de resíduos.
Social
- Saúde e segurança no trabalho;
- Condições laborais;
- Formação e retenção de talento;
- Igualdade de género.
Governação
- Políticas internas;
- Ética e compliance;
- Direitos humanos;
- Transparência e responsabilidade.
CSRD: o que mudou?
Inicialmente, a CSRD aplicava-se a todas as empresas com mais de 250 colaboradores. No entanto, após revisão (pacote Omnibus), o âmbito foi reduzido.
Atualmente, aplica-se a empresas que cumulativamente tenham:
- Mais de 1000 colaboradores;
- Volume de negócios superior a 450 milhões de euros.
Isto reduziu significativamente o número de empresas abrangidas.
O papel dos relatórios voluntários (VSME)
Com esta redução, ganharam relevância os relatórios voluntários (VSME), pensados para PME.
São mais simples e flexíveis, permitindo:
- Iniciar o reporte de forma gradual;
- Adaptar o nível de detalhe à dimensão da empresa;
- Responder a exigências da cadeia de valor.
Estrutura dos VSME
Módulo básico:
- Energia e emissões;
- Água;
- Resíduos;
- Força de trabalho;
- Saúde e segurança.
Módulo abrangente:
- Metas climáticas;
- Riscos;
- Direitos humanos;
- Governação.
Ao contrário da CSRD, aqui aplica-se o princípio do “se aplicável”, simplificando o processo.
O efeito dominó nas PME
Mesmo sem obrigação direta, muitas PME acabam por reportar devido à pressão da cadeia de valor.
Grandes empresas, obrigadas pela CSRD, precisam de dados dos seus fornecedores, o que leva as PME a terem de se adaptar.
Ou seja, reportam não por obrigação legal, mas por exigência do mercado.
O caso do setor da construção
O setor da construção é especialmente relevante:
- 40% dos resíduos da UE vêm da construção;
- 50% dos materiais são consumidos neste setor;
- Grande impacto energético;
- Elevada taxa de acidentes de trabalho.
Além disso:
- Forte dependência de trabalho temporário;
- Problemas de renovação geracional;
- Estrutura altamente fragmentada (95% são PME).
O que reportar na construção?
Alguns pontos críticos:
- Gestão de resíduos;
- Consumo energético (estaleiro e escritório);
- Origem e pegada dos materiais;
- Segurança no trabalho;
- Condições de subcontratação;
- Formação e qualificação.
Tudo isto torna o reporte mais desafiante, mas também mais necessário.
Evitar o greenwashing
Um dos maiores riscos é confundir reporte com marketing. Exemplos a evitar:
- “Usamos materiais sustentáveis” (vago);
- “Somos neutros em carbono” (sem contexto).
Boas práticas:
- Usar dados concretos e mensuráveis;
- Contextualizar a informação;
- Assumir desafios e áreas de melhoria.
A transparência gera mais confiança do que a perfeição.
Como começar?
Um roteiro simples:
- Escolher o modelo (ex: VSME);
- Identificar indicadores disponíveis;
- Produzir um primeiro relatório simples (mais descritivo);
- Criar uma rotina de melhoria contínua.
O setor da construção está no centro do desafio - mas também da oportunidade.
Com um forte impacto ambiental e social, e uma previsão de crescimento significativo, torna-se essencial:
- Reduzir impactos;
- Aumentar transparência;
- Ganhar competitividade.
O relatório de sustentabilidade deve ser visto como um instrumento estratégico, não apenas de reporte, mas de transformação.
Assista aqui ao webinar completo: