Construção em transformação: tendências e previsões para 2026
A sustentabilidade e a nova regulamentação estão a transformar o setor da construção e a exigir uma adaptação crescente por parte de toda a fileira, incluindo distribuidores e comerciantes de materiais de construção. Entre novas obrigações ambientais, exigências de digitalização e desafios ligados à habitação, o setor enfrenta uma fase de mudança profunda, com impacto direto na forma como os produtos são selecionados, comercializados e integrados nos projetos.
Neste contexto, José de Matos, Secretário-Geral da Associação Portuguesa dos Comerciantes de Materiais de Construção (APCMC), partilhou uma análise sobre as principais tendências e perspetivas para o setor da construção em Portugal em 2026. Ao longo da sua intervenção, destacou o enquadramento económico atual, os efeitos da nova regulamentação em matéria de sustentabilidade e as responsabilidades e oportunidades que se colocam aos vários agentes do setor nos próximos anos.
Enquadramento do setor: conjuntura favorável
Para José de Matos, a conjuntura tem sido, de forma geral, mais favorável de ano para ano. O setor da construção apresenta uma evolução globalmente positiva, com previsões de crescimento revistas em alta para 2026 e 2027. Esta dinâmica é sustentada pela recuperação do poder de compra, pela descida das taxas de juro e pelo aumento do rendimento disponível das famílias.
Também o investimento público, através do PRR e do Portugal 2030, contribui para este cenário, assim como a estabilidade do mercado de trabalho, apesar da escassez de mão de obra.
Ainda assim, persistem desafios importantes, nomeadamente o aumento dos custos da construção, impulsionado sobretudo pela subida dos custos com mão de obra. Apesar da estabilização dos preços dos materiais, os custos totais continuam a crescer acima da inflação.
Produção, licenciamento e perspetivas
Os indicadores de produção mostram uma tendência de crescimento, com destaque para a engenharia civil, que deverá ganhar maior relevância face à construção de edifícios.
O licenciamento de obras apresenta variações anuais significativas, muitas delas em dois dígitos, o que indica boas perspetivas futuras. No entanto, existe um desfasamento entre o volume licenciado e a capacidade real de construção, sobretudo devido à limitação de recursos humanos.
Apesar do potencial elevado, dificilmente o setor conseguirá acompanhar o ritmo do licenciamento sem alterações nos processos construtivos ou ganhos significativos de produtividade.
Custos vs. preços da habitação
Embora os custos da construção tenham aumentado, os preços da habitação cresceram de forma muito mais acentuada, sobretudo a partir de 2015.
Este desfasamento indica que o problema da acessibilidade não está apenas relacionado com os custos de construção, mas também com fatores de mercado, como o preço dos terrenos e a dinâmica da procura.
Previsões para 2026 e 2027
As previsões apontam para um crescimento moderado em todos os segmentos, com maior destaque para a engenharia civil. No entanto, este crescimento será limitado pela escassez de mão de obra e pela capacidade produtiva do setor.
No comércio de materiais de construção, espera-se igualmente uma evolução positiva, embora mais contida, tanto no segmento grossista como no retalho.
Desafios do setor em 2026
Crise habitacional
A dificuldade de acesso à habitação continua a ser um dos principais desafios, refletindo um problema de sustentabilidade social ainda por resolver.
Possível efeito de bolha
Começam a surgir sinais de sobrevalorização no mercado imobiliário, associados a um maior recurso ao crédito e à alavancagem financeira, o que pode representar riscos em alguns segmentos.
Regulamentação
O novo Regulamento dos Produtos de Construção e a Diretiva do Desempenho Energético dos Edifícios introduzem exigências mais rigorosas, especialmente ao nível das emissões e da sustentabilidade.
Construção offsite
Surge como uma possível resposta à crise habitacional, permitindo maior rapidez de execução, menor desperdício e ganhos de eficiência.
Quais os requisitos que vão marcar os próximos anos?
O Regulamento dos Produtos de Construção traz novas exigências, nomeadamente ao nível das emissões de CO₂ e da utilização sustentável dos recursos.
Até 2030, o principal foco será a medição do impacto ambiental dos materiais, com destaque para o carbono incorporado ao longo do ciclo de vida dos edifícios.
O passaporte digital de produto será um elemento central neste processo, permitindo a partilha de informação técnica e ambiental de forma estruturada. Embora a sua obrigatoriedade seja progressiva, a adoção antecipada poderá constituir uma vantagem competitiva.
Responsabilidades e oportunidades
As novas exigências implicam maior investimento na produção e gestão de informação técnica e ambiental, bem como na digitalização dos processos.
Ao mesmo tempo, criam oportunidades de diferenciação, inovação e eficiência, nomeadamente através do desenvolvimento de produtos com menor impacto ambiental e da melhoria dos processos produtivos.
A valorização de soluções mais sustentáveis e de fornecedores locais pode também ganhar relevância.
Impacto nos distribuidores de materiais de construção
Os distribuidores terão de reforçar a sua capacidade de gestão de informação e adaptação digital, sob pena de perderem competitividade.
A crescente exigência técnica da venda implica maior qualificação dos recursos humanos e um papel mais ativo no apoio ao cliente.
Adicionalmente, a otimização logística e a gestão de embalagens ganham importância, tanto do ponto de vista ambiental como económico.
Podem também surgir novas oportunidades de negócio ligadas à reutilização e reciclagem de materiais, bem como à adaptação do sortido a soluções mais sustentáveis.
O setor da construção entrou em 2026 com perspetivas positivas, mas também com desafios estruturais relevantes. A adaptação às novas exigências regulatórias e ambientais será determinante para garantir a competitividade e a sustentabilidade do setor no futuro.
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